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A língua portuguesa pede socorro?


Artigo escrito pela Embaixadora Master Sónia Crisóstomos.



Não é de hoje que a língua portuguesa tem sido invadida pelo estrangeirismo. Mas a questão parece-me que está para além da falta de vocabulário na língua portuguesa, que, de longe, não é verdade. Nossa língua é uma das mais ricas do mundo com mais de 300 mil palavras, sem contar as derivações (formas verbais). Mas porque aceitamos nas organizações, e acabamos por assumir e abrasileirar algumas palavras estrangeiras? Por que precisamos tanto parecer estadunidenses? Quem nunca usou a palavra deletar, pivotar, “cut” ou percebemos uma fake news como se fosse absolutamente natural?


Nas organizações, é quase como se, para parecermos up to date, tivéssemos que usar jargões estrangeiros para mostrar o nosso alinhamento ao momento organizacional. Hoje em dia não temos processos em andamento, temos processos ongoing, não temos uma data limite, temos um dead line, não temos um ponto de controle, temos um milestone, não temos uma meta, temos um target. E mais importante para nós, mulheres de negócios, pessoas de negócios, não temos uma rede de conexões, temos um networking. Right?


E não só nas áreas de negociação, para conversas com clientes e parceiros quando damos uma carga e uma meta quase inatingível ao nosso sales team, o estrangeirismo hegou ao nosso RH. A nossa área de recursos humanos também se deixou americanizar.

Hoje quero falar de alguns padrões que acontecem nas empresas que são parte de um comportamento de seres humanos, imperfeitos que somos, e que de alguma forma padronizamos, copiamos, modelamos as formas de tratamento porque temos medo da concorrência, somos inseguros das nossas próprias capacidades e aqui abro um parêntese para lembrar que quanto mais colaborativa é a equipe, maior o ganho do grupo. A colaboração é um comportamento que deve prevalecer à chamada competitividade. Let´s see.

Então o que o tal do Mansplainning, Maniterrupting, Bropriating, Gaslighting, Tokenism, Ageism, Ghosting?


Mansplainning. man=homem, splaining=explicar. Vou tentar dizer isso de forma a não deixar a emoção (raiva) tomar conta das minha palavras. Significa o homem, explicar de forma “condescendente” algo a uma mulher, considerando o fato de que quem sabe mais é ele. Posteriormente, esse termo abrandou a pegada sexista, para definir alguém que sabe muito, explicar de forma leve a alguém que sabe menos, sobre um determinado assunto. Em 2010, o termo foi considerado pelo New York Times como a palavra do ano (Fonte Wikipedia)

Maniterrupting. (ou manterrupting) man=homem interrupting= interromper. É usado para descrever situações onde o homem interrompe a fala de uma mulher antes que ela termine seu raciocínio. Significa “interrupção masculina”. Geralmente acontece quando o homem “explica” a mulher de forma altiva, algo que ela já sabe, para reforçar sua superioridade de raciocínio e fortalecer seu estado Alpha na comunicação. Em 2008 a autora Rebecca Solnit publicou um livro entitulado “Os Homens Explicam Tudo Para Mim”. Ela conta que em uma de suas falas, foi interrompida por um homem para explicar o sobre o livro que ela escrevera. A motivação do manterrupting é claramente misógina e sexista.

Bropriating = Bro=irmão priating=apropriação. É a ação do homem se apoderar de idéias tidas por mulheres e toma-las como suas. Quem nunca ouviu isso acontecer não é? Em organizações, apesar de já vermos algumas mudanças, umas por força de lei e outras porque já vemos homens de mente aberta no “board”, das empresas, a prática ainda é comum, infelizmente. Para ilustrar o fato, o influenciador João Marques, por mais de 25 anos plagiou o trabalho da psicóloga Valeska Zanello. E Adivinhem qual era o tema? Masculinidade Tóxica.

Gaslighting = Sem uma tradução literal, podemos dizer que algo que acontece à meia-luz. Infelizmente, mais uma vez vemos esse comportamento associado mais fortemente a mulheres, mas não só. É a prática da violência psicológica onde faz com que a pessoa vítima da situação duvide da própria memória, ou faz com que a realidade seja distorcida pondo em dúvida a palavra do indivíduo. Como envolve frequentemente enganações e mentiras, é um comportamento de relação abusiva e vale o alerta para quem se vê em situações semelhantes. Frases comuns a esse comportamento frequentemente são: “você está exagerando, você está ficando louca, está histérica, não da pra falar com você”.

Tokenismo= token significa simbílico. E esse conceito não é recente. Foi compreendido nos anos de 1950 quando o conceito social e a prática, visava incluir minorias nos quadros organizacionais, somente por aparência. A contratação de mulheres, negros, grupos sub-representados era, e ainda é, somente um simbolismo para afirmar que a empresa em questão não tem preconceitos e aceita a igualdade de gêneros, raça e credo. Credo!

Existe para essa minoria uma alta pressão por resultados, visto que ele é destacado como minoria e precisa “provar” que merece estar no lugar onde está.

Ageism = Já escrevi um artigo sobre o tema. Na língua portuguesa, idadismo refere-se ao tratamento diferenciado dado a pessoas de mais idade, que aqui transcrevo os primeiros parágrafos:

“Por definição, idadismo trata-se de atitude preconceituosa e discriminatória, baseada na idade das pessoas, em especial as idosas. O tema nem á assim tão novo. O Francês Honoré de Balzac nos anos de 1831-32 escreveu sua famosa obra A Mulher de Trinta. No caso do autor, ele versava sobre a maturidade da mulher com mais de trinta anos para viver a plenitude de seu amor, em detrimento das mocinhas românticas de vinte anos.


Por anos, as mulheres passaram a sofrer de angústia por serem chamadas de balzaquianas, o que lhes conferiam o atributo de maturidade ou como diziam alguns, nos anos 70, já estavam “passadas”. No idadismo a questão torna-se um pouco mais densa, com contornos desagradáveis e nuances de exclusão, quando se fala sobre envelhecer.

O Brasil até muito pouco tempo era considerado o país jovem, o país de jovens. Mas o tempo passa célere para todos e nesse particular é importante que possamos falar sobre o idadismo ou ageism, uma atitude discriminatória que mina as famílias, os ambientes empresariais e marca a vida das pessoas em idades mais avançadas de modo que essas passam a se sentir seres descartados, obsoletos, desnecessários, causando-lhes sentimentos de menor valia.” (leia artigo completo em https://tinyurl.com/ywj2m3rp )

Ghosting = Ghost=fantasma. O tema começou a ser usado com o advento dos aplicativos de relacionamento onde as pessoas iniciavam o que parecia ser uma conversa promissora e o outro simplesmente desaparecia. Em seguida passou a ser usado nas organizações, devido a ausência de funcionários após a primeira entrevista. Existem estatísticas muito relevantes quanto ao “desaparecimento” de candidatos durante o processo seletivo. Cerca de 43% dos candidatos a uma vaga, desistem do processo e param de responder a mensagens dos recrutadores.

Na vida pessoal também existe o ghosting que é quando você começa a ouvir desculpas ou passa por situações como: estar bloqueado do whatsapp ou ler a mensagem e não responder, não ser chamado para a reunião de amigos, ouvir a pessoa com que se relaciona dizer frequentemente que não teve tempo para estar com você ou simplesmente sumir.

E por último mas não menos importante.

Wollying = é o bulying praticado entre mulheres. Pode ou não acontecer de forma declarada como palavras de desincentivo ou críticas abertas como também fofocas, disse-me-disse, formas de diminuir outra mulher. O que estaria por trás desse comportamento? Inveja? Insegurança? Como nem eu sei a resposta, deixo o questionamento para suas considerações.

Quando comecei a escrever esse artigo, queria enfatizar a questão do estrangeirismo na língua portuguesa, mas ao final, percebo que não só a nossa língua mãe pedir socorro. Nós pedimos socorro. Vivemos uma época de relacionamentos tóxicos e fugazes. Temos medo do outro, não nos entregamos por inteiro. Vivemos uma vida fake e relacionamentos superficiais. Os grupos minoritários são aceitos por força de lei e sofrem uma pressão exacerbada pela sua etnia, pela sua cor de pele, pelo seu cabelo crespo. Onde nós chegamos?

Stop it!

Sônia Crisóstomo

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